segunda-feira, 9 de maio de 2011

Você Conhece o Japão? Será?

Martin Fackler – Memuro (Japão)
Satomi Sato, uma viúva de 51 anos, sabia que teria dificuldades para criar uma filha adolescente com os menos de US$ 17 mil por ano que ganhava em dois empregos. Mesmo assim, ela ficou surpresa no ano passado, quando o governo anunciou pela primeira vez uma linha oficial de pobreza –e que ela estava abaixo dela. “Eu não quero usar a palavra pobreza, mas certamente sou pobre”, disse Sato, que trabalha nas manhãs preparando almoços embalados e nas tardes entregando jornais. “A pobreza ainda é uma palavra muito incomum no Japão.”
Após anos de estagnação econômica e aumento da desigualdade de renda, este país antes orgulhosamente igualitário está despertando tardiamente para o fato de que possui um número grande e crescente de pobres. A revelação pelo Ministério do Trabalho, em outubro, de que quase um entre cada seis japoneses, ou 20 milhões de pessoas, vivia na pobreza em 2007, espantou o país e provocou um debate sobre os possíveis remédios que apenas se inflamou de lá para cá. Muitos japoneses, que se agarram ao mito popular de que seu país é uniformemente de classe média, ficaram ainda mais chocados ao ver que o índice de pobreza no Japão, em 15,7%, era próximo do número da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 17,1% para os Estados Unidos, cujas gritantes desigualdades sociais foram por muito tempo vistas com escárnio e compaixão aqui. Mas talvez igualmente surpreendente tenha sido a admissão por parte do governo de que vinha mantendo as estatísticas da pobreza em segredo desde 1998, enquanto negava que havia um problema, apesar das evidências ocasionais do contrário. Isso acabou quando um governo de esquerda, liderado pelo primeiro-ministro Yukio Hatoyama, substituiu no ano passado o Partido Liberal Democrata que governou por muito tempo, com a promessa de forçar os burocratas lendariamente sigilosos do Japão a serem mais transparentes, particularmente em relação aos problemas sociais, disseram autoridades do governo e especialistas em pobreza. “O governo sabia do problema da pobreza, mas o estava escondendo”, disse Makoto Yuasa, chefe da Rede Antipobreza sem fins lucrativos. “Ele tinha medo de enfrentar a realidade.”
Seguindo uma fórmula internacionalmente reconhecida, o ministério estabeleceu uma linha de pobreza em cerca de US$ 22 mil por ano para uma família de quatro, metade da renda média de um lar do Japão. Os pesquisadores estimam que a taxa de pobreza do Japão dobrou desde o colapso dos mercados de imóveis e ações do país no início dos anos 90, provocando duas décadas de estagnação de renda e até mesmo declínio. O anúncio pelo ministério ajudou a expor um problema que os assistentes sociais dizem ser facilmente ignorado no Japão relativamente homogêneo, que não possui as altas taxas de criminalidade, a decadência urbana e as divisões raciais dos Estados Unidos. Especialistas e assistentes sociais dizem que os pobres do Japão podem ser difíceis de serem apontados, porque eles se esforçam para manter a aparência do conforto da classe média. Poucos japoneses empobrecidos parecem dispostos a admitir seu apuro, por temor de serem estigmatizados. Apesar de pouco mais da metade das mães solteiras do Japão, como Sato, serem pobres – uma proporção mais ou menos semelhante à dos Estados Unidos – ela e sua filha, Mayu, 17 anos, não medem esforços para esconder sua carência. Elas exibem sorrisos, ela disse, mas “choram por dentro” quando amigos ou parentes conversam sobre férias, um luxo que elas não podem arcar. “Dizer que somos pobres chamaria a atenção, então eu prefiro esconder”, disse Sato, que mora em um projeto habitacional nesta pequena cidade cercada por terras agrícolas planas, sem árvores, que lembram o Meio-Oeste americano. Ela disse que já tinha pouco dinheiro antes de seu marido, um operador de maquinário de construção, ter morrido de câncer de pulmão há três anos. Ela disse que as dificuldades da família começaram no final dos anos 90, quando o declínio econômico piorou aqui na ilha de Hokkaido, no norte, como aconteceu em grande parte do Japão rural. Mesmo com dois empregos, ela disse que não pode pagar uma consulta médica ou comprar os medicamentos para tratamento de uma série de problemas de saúde, como tontura e dores nas juntas. Quando sua filha precisou de US$ 700 para comprar uniformes escolares e se matricular no colégio no ano passado, uma exigência comum aqui, ela economizou para isso reduzindo suas refeições para duas por dia.
Especialistas em pobreza consideram típico o caso de Sato. Eles dizem que mais de 80% daqueles que vivem na pobreza no Japão fazem parte da chamada classe trabalhadora pobre, que recebem baixos salários, têm empregos temporários sem nenhuma segurança e poucos benefícios. Eles geralmente têm dinheiro suficiente para comer, mas não para realizar atividades normais, como jantar fora com os amigos ou ir ao cinema. “A pobreza em uma sociedade próspera geralmente não significa dormir em trapos no chão”, disse Masami Iwata, uma professora de bem-estar social da Universidade Feminina do Japão, em Tóquio. “Essas são pessoas com celulares e carros, mas que estão cortadas do restante da sociedade.” Anos de desregulamentação do mercado de trabalho e concorrência com os baixos salários da China provocaram uma proliferação de empregos mal remunerados no Japão, dizem os economistas. Além disso, esses empregos costumam não ser cobertos pela rede de segurança social ultrapassada, criada décadas atrás como um último recurso, em uma era em que a maioria dos homens podia esperar empregos que durariam a vida toda. Isso abriu uma enorme fenda na qual caíram milhões de japoneses. Um deles foi Masami Yokoyama, 60 anos, que perdeu o emprego que teve durante toda sua vida há uma década, enquanto lutava com a depressão após um divórcio. Ele teve uma série de empregos de baixa remuneração até três anos atrás, quando acabou virando um morador de rua de Tóquio. Ainda assim, as autoridades de bem-estar social da cidade rejeitaram três vezes seu pedido, porque ele ainda era um homem capaz. “Assim que você cai no Japão, não há ninguém para aparar sua queda”, disse Yokoyama, que finalmente obteve uma ajuda limitada do governo e encontrou um emprego de meio período como vigia noturno.
Ganhando grande atenção aqui estão as estatísticas que mostram que uma entre sete crianças vive na pobreza, um motivo para o novo governo ter prometido oferecer uma ajuda mensal de US$ 270 por criança e cortar o custo do ensino médio. Ainda assim, os assistentes sociais dizem que temem que os pobres não conseguirão pagar pelas escolas lotadas e outras despesas para que seus filhos possam competir no sistema de educação de alta pressão do Japão, os relegando a um ciclo permanente de trabalho de baixa remuneração. “Nós corremos o risco de criar uma classe baixa crônica”, disse Toshihiko Kudo, um membro do conselho da Ashinaga, um grupo sem fins lucrativos com sede em Tóquio que ajuda crianças pobres e órfãs. Sato expressou temores semelhantes em relação à sua filha, Mayu. Mayu quer frequentar uma escola vocacional para se tornar dubladora de desenhos animados, mas Sato disse que não tem como arcar com a despesa anual de US$ 10 mil. Mesmo assim, ela permanece otimista, mesmo que resignada. Ela disse que seu maior problema é não ter ninguém com quem falar. Apesar de saber que muitas outras famílias já enfrentaram dificuldades semelhantes nesta cidade pequena, a recusa delas em admitir sua pobreza torna impossível encontrá-las. “Na cama à noite, eu penso: ‘Como eu caí tanto? Como fiquei tão isolada?” disse Sato. “Mas geralmente eu tento não pensar a respeito.”

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2010/04/22/abalado-pela-crise-o-japao-enfrenta-a-realidade-da-pobreza.jhtm

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Vale a pena negociar com os EUA?

Um Acordo Comercial com os Estados Unidos Faz Sentido?
Isto é um teste de administração econômica que vai mudar a forma de você pensar um dos grandes problemas nacionais:

O crescimento e ameaça da Índia e da China que nos vêem como concorrentes potenciais.

Parceria conosco, esqueçam.

A maioria dos intelectuais da USP, Unicamp e Brasília foram contra a ALCA e são contra qualquer acordo comercial que aumente o intercâmbio de produtos entre o Brasil e os Estados Unidos.

Apesar de que 30% dos Estados Unidos será controlado por Latino Americanos em 2020 e que comprariam nossos produtos numa boa.





Poderíamos criar marcas e fazer marketing direto, em vez de vender commodities para multinacionais americanas.
A razão desta rejeição é devida à crença que se fizermos um acordo comercial com os Estados Unidos, as empresas americanas simplesmente irão destruir as empresas brasileiras.

Se você acha que um acordo bilateral seja um ganha- ganha, não precisa ler este artigo.

Mas se você acha que seria um ganha-perde, onde nós sairíamos perdedores, leia com atenção, e por favor não me chamem de entreguista ou algo parecido.

Imaginem que existam somente 4 empresas no mundo, duas nos Estados Unidos e duas no Brasil.

Como existem barreiras comerciais, os dois países não comercializam muito entre si, e as 4 empresas sobrevivem sem nenhuma competição externa.

Aí, um maluco com ideias “neoliberais”, sugere abrir as portas comerciais entre os dois países.

O que irá acontecer com cada uma destas 4 empresas ?

1. Se você respondeu que 2 destas empresas irão falir no dia seguinte da liberalização, você acertou em cheio.

Por isto, tem tanto empresário na luta contra acordos de comércio, e a ALCA em particular, e a globalização em geral.

2. Se você respondeu que serão justamente as 2 empresas brasileiras que irão quebrar, você está em boa companhia.

A maioria dos nossos intelectuais acha o mesmo, como já expliquei acima.

3. Se você respondeu que uma empresa americana e uma empresa brasileira irão quebrar, você será um bom administrador, e especialmente um bom Ministro da Fazenda.

A resposta correta é prever a falência de 1 empresa americana, a intensiva de mão de obra onde os produtos são costurados à mão, num país com mão de obra cara.

E, a falência de 1 empresa brasileira, a de raquetes de tênis, por exemplo, que usa materiais de alta tecnologia.

O que você deve estar se perguntando é por que não são as duas empresas americanas que sobrevivem, destruindo com seu poder de fogo as duas empresas brasileiras?

Porque nenhuma empresa americana em sã consciência quer receber Reais como pagamento.

Todas querem receber dólares, a moeda de seu país, com os quais pagam os salários dos seus trabalhadores.

Você que é advogado ou psicólogo, gostaria de receber de um paciente nigeriano, pagamento em Nairas ? Por quê não? É preconceito?

Mas é isto que aconteceria.

Você poderia a contragosto sair comprando Produtos Nigerianos ou vender suas Nairas a um importador que faria bom uso do dinheiro, dando Reais em troca.

Por isto, toda importação gera a longo prazo uma exportação de igual valor, e vice versa.

Portanto, não é correta a análise difundida por aí que a globalização e a Alca acabarão com todas as nossas indústrias.

Acabarão com algumas delas, o que obviamente é suficiente para gerar enorme gritaria na FIESP.

São as empresas familiares atrasadas que mais sofrerão, e obviamente já sabem disto.

A liberalização do comércio quebraria uma empresa da FIESP, mas mais do que dobraria o tamanho da outra empresa que sobreviverá.

Perderíamos a indústria de raquetes de tênis mas a indústria de bolas esportivas que usa couro e mão de obra barata cresceria, e provavelmente seria ocupada por milhares de pequenas empresas do Nordeste.

Não entendo como a Unicamp não percebeu isto.

Como a maioria destas empresas nem existe ainda, não tem como se organizar e defender em Brasília seus futuros interesses.

Se você acha que foi FHC, Lula ou a esquerda brasileira que votou contra a ALCA, você está redondamente enganado.

A esquerda mais uma vez foi usada pelos empresários e seus economistas para defender os interesses da extrema direita, em detrimento do progresso desta nação.

Agora vejam as consequências:

O PIB americano hoje é + ou - 10 vezes maior que o PIB brasileiro.

Com um acordo bilateral as empresas americanas que venderiam mais para o Brasil teriam uma expansão de mercado de 10% ( 1/10), ou seja, nada espetacular.

Não haveria para eles nenhuma economia de escala, não daria para introduzir um sistema de produção mais produtivo.

Por isto as empresas americanas até desistiram de lutar pela ALCA, o ganho não valia a pena o custo político, já que nem o Brasil se interessava.

Mas notem o que os economistas brasileiros nunca divulgaram, nem o mais neoliberal.

As empresas brasileiras de bolas esportivas teriam um mercado 10 vezes maior, ou 1000%, (10/1) uma bela diferença.

Claro que o comércio seria igual para os dois países, digamos 1 bilhão exportado e 1 bilhão importado.

Mas para algumas empresas brasileiras seria uma enorme vantagem competitiva. Você consegue perceber o motivo?

As dicas estão aí em cima, é só repescar a informação.

Com 1000% de aumento, estas empresas teriam enormes economias de escala, e não somente os 10% das americanas.

Permitiria mudar radicalmente sua forma de produção o que permitiria baratear ainda mais o seu custo unitário.

Poderíamos até pensar em competir, inclusive com a Índia e a China.

Mas o sonho acabou.

Quem comemorou o fim da ALCA, nunca estudou administração econômica nem contabilidade.

Perdemos um grande mercado, justamente aquele que está permitindo à China ganhos enormes de produtividade.

Parabéns a todos que deram ouvidos aos nossos brilhantes intelectuais que nunca trabalharam numa empresa brasileira.

Disponível em: http://blog.kanitz.com.br/2011/03/um-acordo-comercial-com-os-estados-unidos-faz-sentido-.html#more